Um sonho geológico no Sul
Eu tinha um grande sonho na vida: conhecer os cânions da região sul do Brasil. Em 2018 tive a oportunidade de viajar para Gramado onde peguei a estrada e duas horas depois estava na cidade de Cambará do Sul, onde fica o Parque Nacional de Aparados da Serra. Nele vivi um dos momentos mais emocionantes da minha vida que foi ver, ao vivo e a cores, o cânion do Itaimbezinho. Um desnível que chega, em determinados locais, a 700 metros de altura, e uma paisagem estonteante que leva a sua mente a uma viagem extraordinária em busca de entendimento de como é belo e complexo o planeta.
Na ocasião eu pude apenas conhecer a parte alta do parque, caminhando nas bordas do cânion, mas fiquei com a imensa vontade de voltar e cumprir a trilha que é feita por dentro do cânion.
O retorno aos cânions
Pois bem, janeiro de 2020 estava eu de volta a esta terra maravilhosa dos cânions. A parada foi a cidade de Praia Grande, que fica em Santa Catarina e não tem praia — um nome que intriga! O interessante é que o topo do cânion é RS, enquanto a parte baixa é outro estado!
Em um dia ensolarado e belíssimo partimos então para conhecer esta maravilha. Para fazer a trilha do rio do Boi, que compreende um trajeto de cerca de 7km pelo interior do PARNA de Aparados da Serra, é necessário contratar um guia pelas regras do parque. Nós nos hospedamos no Ecohostel dos Canyons, o qual oferece serviço de guias em parceria com a Cânyons Adventure.

Preparação e equipamento
Encontramos nosso guia, o João Boeira, o qual indico muito, às 8 horas e logo partimos para o parque com um grupo de oito pessoas. Para entrar na trilha é necessário utilizar perneiras para evitar picadas de animais peçonhentos e também para proteger as canelas, já que atravessamos o rio em dez pontos diferentes, na ida e na volta, totalizando vinte travessias em meio à correnteza e muitas pedras.
A trilha: entre paredões gigantescos
A trilha é bem tranquila, a maior parte plana. O trecho mais cansativo é também o mais espetacular, que é o momento em que seguimos de perto o curso do rio e nos encontramos entre paredões de basalto com uma história geológica de mais de 150 milhões de anos! São 4 km de trilha nas bordas e dentro do rio.

Durante a trilha fizemos diversas paradas para banho, já que são dois poços e três cachoeiras no caminho, fora o trecho final no qual também é possível se banhar nas corredeiras do rio. Cada parada era uma revelação: a água cristalina, o som das quedas d’água ecoando entre os paredões, a frieza revigorante que tira toda a fadiga do corpo.


O clímax: a vista do Itaimbezinho
O melhor fica para o final! Ao fim da trilha, somos agraciados com a visão espetacular das paredes mais altas do Itaimbezinho. Não há palavras o suficiente para descrever esta maravilha, e nem mesmo uma foto é capaz de traduzir aquele ambiente. É preciso ir lá para ter a real dimensão do que é aquela obra do tempo e do esforço da água. Incrível!

Dicas práticas para a trilha
Duração e ritmo: O passeio terminou por volta das 17 horas, portanto é necessário levar lanche reforçado para sustentar a jornada.
Água: Leve apenas uma garrafinha de 500ml, porque ao longo de toda a trilha pelo rio é possível coletar água limpa e potável de nascentes que ficam nas encostas do cânion. Utilizamos desse recurso e não houve qualquer problema durante a viagem.
Hospedagem e alimentação: Se for ficar na cidade de Praia Grande saiba que ela ainda não oferece um suporte bacana de restaurantes e lanchonetes. Há poucas opções e todas, num total de dois estabelecimentos, ficam na praça central da cidade. Há também um pequeno supermercado onde é possível comprar lanches para a trilha.
O Ecohostel dos Cânyons oferece um kit lanche com pão com mussarela e presunto, biscoitos e uma fruta por um valor muito acessível!
Bônus: Torres e a geologia do litoral
E por fim, se for a Praia Grande, não deixe de conhecer a cidade de Torres (RS) que fica a 40 minutos de distância e tem praias belíssimas, nas quais há paredões incríveis na beira do mar. Os paredões de Torres fazem parte da mesma formação geológica dos cânions de Praia Grande. Na verdade, há muitos milhões de anos os cânions iam até o litoral, porém foram sendo erodidos pela ação dos mecanismos do intemperismo e hoje restam apenas resquícios dessa formação no litoral.
Recomendação final
Recomendo fortemente que, se você for ao sul, faça a trilha do rio do Boi. É uma experiência que marca a vida e oferece compreensão profunda da força da natureza e da complexidade dos processos que moldaram a paisagem brasileira.